Páginas

terça-feira, 1 de março de 2016

Monólogo da timidez

Você já teve a sensação de que quem você é não é realmente você?
Parece bizarro de explicar, mas, de certa forma, é como se tudo o que eu quisesse fazer, das coisas mais simples às mais perigosas, não fosse capaz de realizar, e a Maria Luiza que as pessoas veem em mim não permitisse que eu coloque nada em prática. 
Realmente é um conceito que não consigo verbalizar. Por exemplo, imagine que você ouviu uma pessoa com quem não tem uma proximidade lá tão grande (como de irmãos) mas que não é lá tão distante, comentar sobre algo que você gosta e pode ajudar. E que você quer ajudar. Você está ali do lado e sequer tem vergonha dessa pessoa ou alguma timidez perto dela. Fora que não vai te causar trabalho algum. Você ajuda, certo?
Comigo, não. De alguma forma, a penumbra que me rodeia vai me impedir de fazer isso e eu vou ficar calada, quietinha, observando. É assim com tudo, desde meus próprios projetos que não envolvem uma mísera alma sequer até os grandes gestos em público. E eu sequer sei o por quê! Meu cérebro, de alguma forma, processa que fazer o que meu "lado de dentro" quer é errado e eu não devia fazer. Então não faço. Tudo que eu faço é assistir de longe a minha própria vida, como se fosse um carro no piloto automático. Ou um filme que eu certamente não dirigiria (até porque eu jamais dirigiria um filme sobre uma personagem tão sonsa).
O mais irritante é que mesmo quando eu tento falar as coisas que a "de dentro" quer falar, não sai. É muito bizarro. Minha voz não sai, eu gaguejo, sinto que sou interrompida, o tom diminui, minhas pernas falham. Não importa, quase sempre existe um bloqueio físico que me impede de ser eu mesma. Talvez por medo da opinião alheia sobre quem eu verdadeiramente sou. Por timidez, por algum problema psiquiátrico bizarro. Eu não sei! 
Tudo o que eu sei é que através do que escrevo, consigo ser eu. Consigo mostrar o que eu quero, os meus planos, meu desejo louco de fazer algo de bom pelo mundo. No papel sai. Quando eu escrevo por simples prazer, sem razão nenhuma, quando é uma essay (a.k.a textos pessoais exigidos nos processos seletivos das universidades americanas)  ou até numa dissertação-modelinho-ENEM sobre um tema que eu amo, sai. 
Por isso quase nunca deixo ninguém ler o que eu escrevo. Porque ali dentro daquele texto está quem eu sou, sem travas, sem timidez, sem bloqueios. Sem vergonha. E sem nenhum escrúpulo. Sou eu, da forma mais crua, mais pura, mais real. E logo eu, que tenho tanta dificuldade com o mundo real, esse monstro antropofágico que me faz cair em prantos só de pensar nele, me sinto liberta com papel e caneta na mão. Papel, caneta e nenhuma obrigação, nenhuma pressa, nem nenhum olhar ansioso de quem espera que eu diga alguma coisa que, na real, eu quero muito dizer, mas a voz não sai. 
A mão que sufoca até quase me matar não atrapalha os dedos, nem a alma. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fale, fale, fale! Diga o que pensa, expresse sua opinião, isso nunca é demais! Mas cuidado: ofensas, comentários preconceituosos, críticas não-construtivas e propaganda não são aceitas por aqui...